terça-feira, agosto 14

Se houvesse degraus na terra...


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

terça-feira, julho 24

Centenário do comboio em Fafe

Um bilhete para a estação do passado.

Fafe comemora, esta tarde, o centenário da chegada do comboio ao município. Foi a 21 de Julho, no distante ano de 1907 que as locomotivas "Negrellos" nº 2 e "Porto" nº 5 fizeram pela primeira vez o trajecto de Guimarães a Fafe. Desses tempos, resistem ainda marcas no traçado da vila e muitas recordações de viagens. Mas o fumo das caldeiras há muito que desapareceu.

A actual avenida 5 de Outubro ainda lá está, apontando aos visitantes o caminho para a estação terminal. Lá ao fundo, sente-se, agora, a ausência dos ruídos dos comboios de outros tempos, a chegar e a partir para longe. É que apesar das comemorações deste centenário, do comboio em Fafe restam apenas as histórias e recordações dos mais velhos, bem como algumas estruturas que mostram, aos mais novos, o aspecto das locomotivas que por lá passaram outrora.

Desactivada em 31 de Maio de 1986 por razões de viabilidade económica, a linha foi entretanto reconvertida, há onze anos, numa Pista de Cicloturismo mantendo a ligação ao concelho vizinho de Guimarães. A antiga estação é hoje ocupada pela Indáqua Fafe e o seu logradouro era, até há bem pouco tempo, utilizado como depósito de “entulho” da Câmara Municipal.

Hoje, as memórias do comboio serão reavivadas numa cerimónia que começará às 15 horas na Estação de Cepães (Fafe) com uma visita ao local de instalação de uma carruagem, e depois da sessão solene comemorativa nos Paços do Concelho, será apresentada uma medalha evocativa da efeméride.

Mais tarde, será ainda apresentada uma obra de José Emídio Martins Lopes intitulada "Apontamentos sobre o Centenário da chegada do comboio a Fafe". Nesta obra, o autor compilou alguns episódios recolhidos junto de testemunhos que marcaram a complicada construção da linha, que durante muitas décadas foi a principal ligação de Fafe ao Porto.

Por essa altura, já os carris começavam timidamente a fazer parte da paisagem de Portugal, já que a 28 de Outubro de 1856, o Caminho de Ferro público português inaugurava a sua primeira viagem. Já lá vão 151 anos.



Museu nas Antigas Oficinas de Guimarães

Para quem quiser aproveitar o fim-de-semana para saber mais acerca dos caminhos de ferro em Portugal, o Museu Ferroviário é, a Norte, o sítio mais indicado. Localizado junto à estação de Lousado -entroncamento das Linhas do Minho e de Guimarães - recentemente renovado, o espaço deixa entrever um novo e motivante discurso museográfico feito a partir de recordações.

No museu, o visitante poderá encontrar peças e elementos representativos não só do ambiente de trabalho oficinal - a carpintaria, caldeiras, tornos e compressores - como também de outros espaços ferroviários: a estação - bilheteira; sala de despachos - a Passagem de Nível - vigiada por uma zelosa Guarda trajada com a indumentária da década de 40 - as antigas mesas de sinalização de Lousado e de Ermesinde.

Autêntico memorial aos 200 trabalhadores que ali trabalhavam na década de 70, o museu alberga ainda uma carruagem com leito em madeira construída em 1874 e que fora posteriormente transformada em Posto Médico para os funcionários do caminho de ferro e suas famílias.
Velocidade, barulho, cheiro de nafta, óleo e de resina fazem deste espaço. É uma assumida homenagem aos ferroviários mas também àqueles que viajaram nestes Comboios e que em seu redor construíram a sua própria identidade.

terça-feira, junho 26

Há dias em que os minutos são tão longos como as horas, e cada hora é tão distante como um século e a vida não flui. Depois há dias tão curtos como um copo de vinho em resplandecente veludo carmim. E a vida flui como o líquido, dentro e fora dele. Nas entranhas do tempo. Ora doce, ora amargo.

terça-feira, maio 22

Sócrates despede quem conta anedotas

Um membro da DREN foi afastado da Direcção depois de ter, alegadamente, proferido um comentário jocoso acerca da licenciatura de José Sócrates, durante o expediente, a uma colega de escritório. O homem foi afastado do cargo que ocupava desde os anos 80, pura e simplesmente, porque ousou fazer o que meio país tem feito ultimamente: duvidar e brincar com a embrulhada que é a suposta licenciatura do Primeiro Ministro. Meio país devia ser afastado dos cargos públicos. Meio país, incluindo um Ministro "inscrito na Ordem dos Engenheiros" deveria abandonar de vez este Portugal onde subsistem resquícios de Salazarismo mal curado.
Mas ainda alguém acredita que Sócrates concluiu a licenciatura na Independente de forma igual à dos outros estudantes anónimos? Espanta-me, no entanto, que não tenham já corrido com os bonecos do Contra e quatro gatos mal lavados que, nas noites da estação de televisão pública, se (e nos) divertem com os episódios da licenciatura.
Fernando Charrua teceu, em Abril, dentro de portas o dito comentário que lhe abriu a porta da rua. O caso chega agora aos jornais, blogues e à televisão. Todos sabem, mas ninguém admite a Censura. Censura, não falta de sentido de humor. Censura, não coincidência no timing da demissão, como garante o Ministério da Educação.
Será que Sócrates vai também mandar cancelar este Blog? Ficamos à espera.

segunda-feira, maio 21

Não deixar para amanhã

Uma semana. Foi o tempo que durou uma decisão. Todas as noites dormia aqui mesmo ao lado, nos fundos do prédio. Pedia, com o olhar, para o deixarem entrar. Cheirava o rasto dos dias, com ar cansado. Erguia-se ao ouvir o som da porta, abrindo e fechado a cada cinco minutos. Ele permanecia do lado de fora. Sempre a olhar, com o nariz colado ao vidro. Erguia-se para voltar a enrolar-se no chão. Leváva-lhe comida, àgua, mas a decisão nunca mais chegava.
Houve um dia em que lhe comprei uma coleira cor de avelã, a cor que o revestia da ponta da cauda à ponta do focinho. Parecia mais tranquilo, como se os cães não pudessem ser tranquilos, votados a coisas de gente! Mas ele era como gente em forma de abandono. Cheguei tarde, algumas vezes, durante a semana. Estendido como um tapete impedia a passagem, como se para alcançarmos a porta tivessemos de enfrentar a sua presença, primeiro. Era só mais uma noite naquele lugar. Amanhã seria o companheiro de todas as horas. Bolota. Chamar-se-ia Bolota em homenagem ao tom castanho uniforme do pêlo.
Mas, na manhã seguinte só restavam vestígios da sua passagem. Nunca mais estaria lá. Sempre que chego a casa, agora, olho para trás ao fechar a porta. Não fosse ele estar novamente com o nariz colado ao vidro. Não fosse ele querer entrar.