segunda-feira, maio 21

Não deixar para amanhã

Uma semana. Foi o tempo que durou uma decisão. Todas as noites dormia aqui mesmo ao lado, nos fundos do prédio. Pedia, com o olhar, para o deixarem entrar. Cheirava o rasto dos dias, com ar cansado. Erguia-se ao ouvir o som da porta, abrindo e fechado a cada cinco minutos. Ele permanecia do lado de fora. Sempre a olhar, com o nariz colado ao vidro. Erguia-se para voltar a enrolar-se no chão. Leváva-lhe comida, àgua, mas a decisão nunca mais chegava.
Houve um dia em que lhe comprei uma coleira cor de avelã, a cor que o revestia da ponta da cauda à ponta do focinho. Parecia mais tranquilo, como se os cães não pudessem ser tranquilos, votados a coisas de gente! Mas ele era como gente em forma de abandono. Cheguei tarde, algumas vezes, durante a semana. Estendido como um tapete impedia a passagem, como se para alcançarmos a porta tivessemos de enfrentar a sua presença, primeiro. Era só mais uma noite naquele lugar. Amanhã seria o companheiro de todas as horas. Bolota. Chamar-se-ia Bolota em homenagem ao tom castanho uniforme do pêlo.
Mas, na manhã seguinte só restavam vestígios da sua passagem. Nunca mais estaria lá. Sempre que chego a casa, agora, olho para trás ao fechar a porta. Não fosse ele estar novamente com o nariz colado ao vidro. Não fosse ele querer entrar.