terça-feira, maio 22

Sócrates despede quem conta anedotas

Um membro da DREN foi afastado da Direcção depois de ter, alegadamente, proferido um comentário jocoso acerca da licenciatura de José Sócrates, durante o expediente, a uma colega de escritório. O homem foi afastado do cargo que ocupava desde os anos 80, pura e simplesmente, porque ousou fazer o que meio país tem feito ultimamente: duvidar e brincar com a embrulhada que é a suposta licenciatura do Primeiro Ministro. Meio país devia ser afastado dos cargos públicos. Meio país, incluindo um Ministro "inscrito na Ordem dos Engenheiros" deveria abandonar de vez este Portugal onde subsistem resquícios de Salazarismo mal curado.
Mas ainda alguém acredita que Sócrates concluiu a licenciatura na Independente de forma igual à dos outros estudantes anónimos? Espanta-me, no entanto, que não tenham já corrido com os bonecos do Contra e quatro gatos mal lavados que, nas noites da estação de televisão pública, se (e nos) divertem com os episódios da licenciatura.
Fernando Charrua teceu, em Abril, dentro de portas o dito comentário que lhe abriu a porta da rua. O caso chega agora aos jornais, blogues e à televisão. Todos sabem, mas ninguém admite a Censura. Censura, não falta de sentido de humor. Censura, não coincidência no timing da demissão, como garante o Ministério da Educação.
Será que Sócrates vai também mandar cancelar este Blog? Ficamos à espera.

segunda-feira, maio 21

Não deixar para amanhã

Uma semana. Foi o tempo que durou uma decisão. Todas as noites dormia aqui mesmo ao lado, nos fundos do prédio. Pedia, com o olhar, para o deixarem entrar. Cheirava o rasto dos dias, com ar cansado. Erguia-se ao ouvir o som da porta, abrindo e fechado a cada cinco minutos. Ele permanecia do lado de fora. Sempre a olhar, com o nariz colado ao vidro. Erguia-se para voltar a enrolar-se no chão. Leváva-lhe comida, àgua, mas a decisão nunca mais chegava.
Houve um dia em que lhe comprei uma coleira cor de avelã, a cor que o revestia da ponta da cauda à ponta do focinho. Parecia mais tranquilo, como se os cães não pudessem ser tranquilos, votados a coisas de gente! Mas ele era como gente em forma de abandono. Cheguei tarde, algumas vezes, durante a semana. Estendido como um tapete impedia a passagem, como se para alcançarmos a porta tivessemos de enfrentar a sua presença, primeiro. Era só mais uma noite naquele lugar. Amanhã seria o companheiro de todas as horas. Bolota. Chamar-se-ia Bolota em homenagem ao tom castanho uniforme do pêlo.
Mas, na manhã seguinte só restavam vestígios da sua passagem. Nunca mais estaria lá. Sempre que chego a casa, agora, olho para trás ao fechar a porta. Não fosse ele estar novamente com o nariz colado ao vidro. Não fosse ele querer entrar.