Há coisas assim. Sossegados, em frente ao aparelho que outrora ocupava o lugar central na sala das famílias portuguesas, deparamo-nos com coisas que mais parecem vindas desses tempos remotos. Os chinelos, o cigarro pensativo, as imagens e melodias que passam no ecrã do televisor, sem as vermos. Os rios de publicidade que, por mais criativa que seja, é sempre entalada entre blocos de spots pouco imaginativos. O tempo interminável desses blocos, nos intervalos de um qualquer programa televisivo, recorda-nos os interesses comerciais do respectivo canal. Sem excepção do primeiro da Estação Pública, para a qual os eurinhos dos contribuintes não são suficientes. É certo que de publicidade vivem os media. Essa necessidade fica bem escancarada se atendermos ao facto da paginação dos jornais ser condicionada, não pelas noticias, mas pelos anúncios desse dia. Em dias de frenesim comercial, a capa das publicações de "referência" são tomadas por um azul petróleo e a manchete acena um "até já!". E este é apenas um exemplo.
Mas a ideia inicial não era divagar sobre os compromissos publicitários da imprensa, mas discorrer acerca dos anúncios televisivos. E, actualmente, umas quantas pérolas rolam diante do nosso olhar e, muitas vezes, da nossa passividade. A última desencantei-a, numa destas noite, entre o adeus de um pivot e a espera pelo filme que se segue. "O sorriso de nove em cada dez mulheres brilha com o novo calgonit ultra". Assim começa o dito anúncio, ou como se dizia em tempos idos, "reclame" ou "reclamo". Ora, já que reclame se assemelha tanto ao verbo reclamar, é precisamente isso que vou fazer. No site, a dita marca é apresentada como "a principal no ramo dos produtos para máquinas de lavar louça em Portugal. Devido ao inovador sucesso tem sido recomendada pelos principais fabricantes..."
Ora, há aqui uma questão que se impõe: se a marca é inovadora não devia, por isso, usar a muleta do estereótipo e do preconceito em relação às tarefas domésticas, a fazer lembrar os reclamos dos anos cinquenta. Nesse tempo ainda não se usavam máquinas de lavar, claro está, mas a marca, salvadora de todas as fadas do lar, já faria a apologia dos melhores detergentes para limpar os dias das donas de casa. Fácil será perceber que quem faz refeições(ou até cozinha!) em casa tem que manter os utensílios limpos e prontos para uma próxima utilização. Também me parece concebível que quem o faz não tenha que pertencer exclusivamente a um só género, neste caso o feminino.
Além disso, não serão as lides domésticas as principais responsáveis pelo sorriso dos (as) consumidores (as), como se aspirar o pó e colocar roupa na máquina fossem actividades revigorantes e plenas de satisfação pessoal. Isto sem falar do rigor do "estudo" que registou o sorriso de 9 em cada 10 mulheres, numa amostra que, provavelmente, exerce funções em laboratórios de detergentes de louça . A publicidade raia a incongruência, ou no mínimo, a imbecilidade. Uma esfregadela certeira na crosta dos pratos e voilá! a alegria total.
De qualquer forma, as senhoras escolhidas para emprestarem o sorriso à marca vão continuar a fazê-lo, nos próximos meses, nos intervalos do noticiário e das novelas (onde nunca se viu alguém a lavar a loiça). E nós, consumidores fieis ao produto, vamos finalmente experimentar a felicidades de todas as vezes que metermos a pastilhinha na tampa do electrodoméstico.