terça-feira, junho 26

Há dias em que os minutos são tão longos como as horas, e cada hora é tão distante como um século e a vida não flui. Depois há dias tão curtos como um copo de vinho em resplandecente veludo carmim. E a vida flui como o líquido, dentro e fora dele. Nas entranhas do tempo. Ora doce, ora amargo.

terça-feira, maio 22

Sócrates despede quem conta anedotas

Um membro da DREN foi afastado da Direcção depois de ter, alegadamente, proferido um comentário jocoso acerca da licenciatura de José Sócrates, durante o expediente, a uma colega de escritório. O homem foi afastado do cargo que ocupava desde os anos 80, pura e simplesmente, porque ousou fazer o que meio país tem feito ultimamente: duvidar e brincar com a embrulhada que é a suposta licenciatura do Primeiro Ministro. Meio país devia ser afastado dos cargos públicos. Meio país, incluindo um Ministro "inscrito na Ordem dos Engenheiros" deveria abandonar de vez este Portugal onde subsistem resquícios de Salazarismo mal curado.
Mas ainda alguém acredita que Sócrates concluiu a licenciatura na Independente de forma igual à dos outros estudantes anónimos? Espanta-me, no entanto, que não tenham já corrido com os bonecos do Contra e quatro gatos mal lavados que, nas noites da estação de televisão pública, se (e nos) divertem com os episódios da licenciatura.
Fernando Charrua teceu, em Abril, dentro de portas o dito comentário que lhe abriu a porta da rua. O caso chega agora aos jornais, blogues e à televisão. Todos sabem, mas ninguém admite a Censura. Censura, não falta de sentido de humor. Censura, não coincidência no timing da demissão, como garante o Ministério da Educação.
Será que Sócrates vai também mandar cancelar este Blog? Ficamos à espera.

segunda-feira, maio 21

Não deixar para amanhã

Uma semana. Foi o tempo que durou uma decisão. Todas as noites dormia aqui mesmo ao lado, nos fundos do prédio. Pedia, com o olhar, para o deixarem entrar. Cheirava o rasto dos dias, com ar cansado. Erguia-se ao ouvir o som da porta, abrindo e fechado a cada cinco minutos. Ele permanecia do lado de fora. Sempre a olhar, com o nariz colado ao vidro. Erguia-se para voltar a enrolar-se no chão. Leváva-lhe comida, àgua, mas a decisão nunca mais chegava.
Houve um dia em que lhe comprei uma coleira cor de avelã, a cor que o revestia da ponta da cauda à ponta do focinho. Parecia mais tranquilo, como se os cães não pudessem ser tranquilos, votados a coisas de gente! Mas ele era como gente em forma de abandono. Cheguei tarde, algumas vezes, durante a semana. Estendido como um tapete impedia a passagem, como se para alcançarmos a porta tivessemos de enfrentar a sua presença, primeiro. Era só mais uma noite naquele lugar. Amanhã seria o companheiro de todas as horas. Bolota. Chamar-se-ia Bolota em homenagem ao tom castanho uniforme do pêlo.
Mas, na manhã seguinte só restavam vestígios da sua passagem. Nunca mais estaria lá. Sempre que chego a casa, agora, olho para trás ao fechar a porta. Não fosse ele estar novamente com o nariz colado ao vidro. Não fosse ele querer entrar.

sexta-feira, maio 11

Alguém viu este ovo?

Mas será que alguém compreende o retrato-robot elaborado pela Polícia Judiciária, do presumível raptor da criança Inglesa desaparecida no Algarve? Será possível que, após uma semana de buscas e recuos, a PJ nos brinde com uma imagem desenhada no Paint, semelhante a um desenho de criança e nos tente fazer acreditar que procura aquele homem? Na verdade, será mais um ovo com cabelo. E como se sabe, o cabelo é o elemento mais facilmente modificável num rosto. Uma cara com forma oval é a única pista para identificar o possível raptor: sem boca, sem olhos, sobrancelhas, nariz ou orelhas. À parte as justas críticas das mães de crianças portuguesas desaparecidas nos meandros da lei e o mediatismo aceso à volta do caso McCann, parece certo estarmos perante um crime. E, como tal, deve ser investigado. Não se compreende, por isso, que as autoridades percam minutos preciosos na elaboração de um retrato, que tem tanto de enigmático como de hilariante. Se até agora a imprensa Inglesa estava com os olhos postos nas possíveis falhas da actuação da Polícia, agora já poderá aliviar a tensão com uma gargalhada sonora. Ana Sashi

terça-feira, maio 8

Sem rosto, sem rasto

Madeleine McCann era, até à passada quinta-feira, apenas mais uma criança inglesa, a passar férias com os pais, no Algarve. Não fosse o facto destes a terem deixado a dormir nessa noite, com os irmãos de dois anos, no quarto de hotel onde se hospedaram, e talvez a esta hora ninguém soubesse, em Portugal, quem é esta menina. A verdade é que os progenitores negligenciaram os três menores, indo jantar fora do estabelecimento turístico na praia da Luz e descartando a hipótese de recorrer ao serviço de creche disponível no Hotel. Muito se tem falado nas diferenças culturais, entre pais nórdicos, ocidentais, de leste e das diferentes posturas na educação dos filhos. Mais liberais, menos permissivos, mais "galinha". Em qualquer caso, os pais e mães devem, espera-se, zelar pela segurança dos miúdos. Não foi, à partida, o que terá acontecido. E em vez de uma Madeleine desaparecida, cinco dias depois do possível rapto, poderíamos temer pela sorte de mais duas crianças, os irmãos que dormiam ao seu lado e que não foram levados.
Nunca se viu tanto aparato policial em buscas e caça ao homem, pelos caminhos de Portugal. Nem mesmo aquando do desaparecimento da pequena Joana, vitima do desiquilibrio irracional de uma mãe chorosa perante as câmaras. Será que o grande mediatismo dos desaparecimentos de menores, incita a um maior empenho e disponibilidade por parte das autoridades? Terá o facto da cobertura intensiva deste caso pela SkyNews e BBC contribuído para apressar todas as buscas e comunicados? Será a nacionalidade da criança um factor diferenciador em relação às outras vitimas?
No terreno estão, cinco dias depois da tragédia, vários membros da policia britânica, Policia Judiciária, GNR, bombeiros, populares com paus na mão, cães, helicópteros sobrevoando o sul do país, barcos, mergulhadores. Todos os centímetros de terra e água, num raio de quinze quilómetros, são remexidos e cheirados. Todas os esforços são poucos. No entanto, a opinião pública não se pode esquecer dos muitos casos de desaparecimento de crianças, em território nacional, nos últimos anos, e que continuam por encontrar. Para nenhum desses casos foram destacados mais de cem elementos policiais, como agora. Esses casos, que antes de o serem eram crianças com vida, identidade, sonhos e família não tiveram tanta relevância para os media. Ninguém, para além de familiares e conhecidos, bateu cada caminho possível e fez o festival mediático que se assiste agora. Enfim, é certo que Madaleine é uma criança em risco, talvez mais uma vítima de redes de pedofilia ou adopção ilegal. Os elementos recolhidos até agora dão conta de um retrato-robot de um homem britânico, possivelmente o raptor pertencente a uma rede igualmente Inglesa. Mas não há certezas para os pais desesperados. Os familiares da menina não criticam, no entanto, a conduta do casal naquela noite tal como era hábito. Apontam o dedo às autoridades portuguesas, que mesmo antes do desaparecimento, já deviam estar alerta. Como se a Scotland Yard fosse um exemplo de segurança, mesmo quando dispara sobre inocentes que se lhe afiguram temiveis terroristas.
Mady deve estar, por esta hora, já muito longe do Algarve, talvez até fora do país. Não se sabe com quem e se viva. Os dias vão passando e as redes de exploração sexual aumentam sem punição, aumentando também o volume das "encomendas". Madeleine pode ter sido a última, até este momento. Mas quantas outras estarão longe de casa? Ana Sashi