sábado, janeiro 12

Comunidade

"Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão conchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva (...)".

Pacheco

Pacheco: um amigo de 50 paus.

"O Luiz Pacheco é provavelmente o maior filho da puta, a pessoa mais corrosiva, mais intratável que há, mas eu gosto dele. Não sei porque mas gosto dele. O Luiz tem a capacidade de dizer o que pensa, de dizer mesmo tudo o que pensa, mesmo o que não poderia dizer(...)"
Publicado por amnésia

sexta-feira, dezembro 28

Paquistão a ferro e fogo. U.S.A. com panos quentes. Médio Oriente com demasiada pólvora.

terça-feira, agosto 14

Se houvesse degraus na terra...


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

terça-feira, julho 24

Centenário do comboio em Fafe

Um bilhete para a estação do passado.

Fafe comemora, esta tarde, o centenário da chegada do comboio ao município. Foi a 21 de Julho, no distante ano de 1907 que as locomotivas "Negrellos" nº 2 e "Porto" nº 5 fizeram pela primeira vez o trajecto de Guimarães a Fafe. Desses tempos, resistem ainda marcas no traçado da vila e muitas recordações de viagens. Mas o fumo das caldeiras há muito que desapareceu.

A actual avenida 5 de Outubro ainda lá está, apontando aos visitantes o caminho para a estação terminal. Lá ao fundo, sente-se, agora, a ausência dos ruídos dos comboios de outros tempos, a chegar e a partir para longe. É que apesar das comemorações deste centenário, do comboio em Fafe restam apenas as histórias e recordações dos mais velhos, bem como algumas estruturas que mostram, aos mais novos, o aspecto das locomotivas que por lá passaram outrora.

Desactivada em 31 de Maio de 1986 por razões de viabilidade económica, a linha foi entretanto reconvertida, há onze anos, numa Pista de Cicloturismo mantendo a ligação ao concelho vizinho de Guimarães. A antiga estação é hoje ocupada pela Indáqua Fafe e o seu logradouro era, até há bem pouco tempo, utilizado como depósito de “entulho” da Câmara Municipal.

Hoje, as memórias do comboio serão reavivadas numa cerimónia que começará às 15 horas na Estação de Cepães (Fafe) com uma visita ao local de instalação de uma carruagem, e depois da sessão solene comemorativa nos Paços do Concelho, será apresentada uma medalha evocativa da efeméride.

Mais tarde, será ainda apresentada uma obra de José Emídio Martins Lopes intitulada "Apontamentos sobre o Centenário da chegada do comboio a Fafe". Nesta obra, o autor compilou alguns episódios recolhidos junto de testemunhos que marcaram a complicada construção da linha, que durante muitas décadas foi a principal ligação de Fafe ao Porto.

Por essa altura, já os carris começavam timidamente a fazer parte da paisagem de Portugal, já que a 28 de Outubro de 1856, o Caminho de Ferro público português inaugurava a sua primeira viagem. Já lá vão 151 anos.



Museu nas Antigas Oficinas de Guimarães

Para quem quiser aproveitar o fim-de-semana para saber mais acerca dos caminhos de ferro em Portugal, o Museu Ferroviário é, a Norte, o sítio mais indicado. Localizado junto à estação de Lousado -entroncamento das Linhas do Minho e de Guimarães - recentemente renovado, o espaço deixa entrever um novo e motivante discurso museográfico feito a partir de recordações.

No museu, o visitante poderá encontrar peças e elementos representativos não só do ambiente de trabalho oficinal - a carpintaria, caldeiras, tornos e compressores - como também de outros espaços ferroviários: a estação - bilheteira; sala de despachos - a Passagem de Nível - vigiada por uma zelosa Guarda trajada com a indumentária da década de 40 - as antigas mesas de sinalização de Lousado e de Ermesinde.

Autêntico memorial aos 200 trabalhadores que ali trabalhavam na década de 70, o museu alberga ainda uma carruagem com leito em madeira construída em 1874 e que fora posteriormente transformada em Posto Médico para os funcionários do caminho de ferro e suas famílias.
Velocidade, barulho, cheiro de nafta, óleo e de resina fazem deste espaço. É uma assumida homenagem aos ferroviários mas também àqueles que viajaram nestes Comboios e que em seu redor construíram a sua própria identidade.

terça-feira, junho 26

Há dias em que os minutos são tão longos como as horas, e cada hora é tão distante como um século e a vida não flui. Depois há dias tão curtos como um copo de vinho em resplandecente veludo carmim. E a vida flui como o líquido, dentro e fora dele. Nas entranhas do tempo. Ora doce, ora amargo.